As crônicas de LuLe

CANTAR O GOL

Meu pai sempre disse que não se deve cantar o gol. “Porra, quem mandou falar?”, gritava, irado, diante da televisão, quando, depois de um lance em que a bola se direcionara para fora ou lambera a trave. “Não pode cantar o gol antes, não pode dizer ‘é gol’ antes da bola na rede, porque aí não é gol”, explicava. Mais uma superstição futebolística, mais um pantim, mais uma mania atrelada ao emocionante, tenso e catártico exercício de ver um jogo de futebol.
No campo mesmo, não vi muitos com meu pai, pois ele trabalhava como médico do Glorioso da Praça da Bandeira e ficava lá no banco de reservas, sendo acionado toda vez que um jogador caía dentro das quatro linhas e o juiz mandava o povo entrar. Porém estive, e ainda estou, ao lado dele em incontáveis momentos em frente à TV, assistindo a partidas em que o Leão enfrentava algum time do lado de lá do país ou aos agoniantes jogos de Copa do Mundo. E várias vezes o vi amaldiçoar a prosaica cantada, que todo mundo pratica, sem exceção.
Esse pensamento me invadiu ontem durante o jogo entre meu time e um escrete gaúcho, válido por um certame nacional. Engraçado que em momento algum eu quis esconjurar quem, do meu lado, previu o gol segundos antes do grito explodir, embora nessas ocasiões sempre me lembre do meu pai (que não vai mais ao estádio por, segundo ele, medo de não agüentar o tranco). Primeiro, foi meu primo quem anteviu, com poucos minutos de jogo, quando a bola ainda estava parada no corner, à espera do meia para bater o escanteio:”Agora é o gol”. E o centroavante veio, meteu a cabeça, e foi gol. Depois teve o empate do time de lá e muitos minutos de susto e, a verdade é essa, pânico nas arquibancadas. Durante o intervalo olhei para o céu, turvo e nublado, e sei lá em que pensei, mas pensei no meu pai, nos meus irmãos, nos meus tios que não estavam comigo, uns longe, outros já no céu… E também imaginei que dava para fazer dois gols e garantir a classificação nos próximos 45 minutos.
Por via das dúvidas, aliei uma corrente energética à confiança no meu time e dei quatro passos para a direita para ficar mais perto de meu primo, com quem já comemorei muitos feitos e com quem já invadi o campo da Ilha do Retiro.
Aos 17 minutos do segundo tempo veio o gol de número 2, sem cantada alguma, porque a jogada se desenhou rápida pelo lado direito e o número 11, zunindo feito uma bala, atravessou a área e cruzou para um outro centroavante tocar para as redes. Não pulei, apenas senti os abraços de meus companheiros de torcida e a vibração de 31 mil vozes em um só coro. Disse assim para mim e para meu primo: “Só vou comemorar o terceiro gol, o que vale”.
Então lá pouco depois dos 30 minutos, minha camisa já torta de tanta mandinga que costumo fazer quando o adversário parte com a bola para o ataque, veio uma falta perto da área para o Rubro-negro bater. O número 11 se aproximou da pelota. Os jogadores do outro time faziam cera para arrumar a barreira. O juiz apitou. O número 11 correu e passou por cima da bola (ou será que ele deu um leve toque?). Meu amigo de voz de trovão berrou: “Deixa para o melhor zagueiro do Brasil”. Eu cheguei na orelha do meu primo e disse: “Vai, zagueiro”. E ele foi. E nos milionésimos de segundo que transcorreram entre esse momento e o seguinte, eu vi o pé dele (direito ou esquerdo? tanto faz) se dirigir à bola e, quando o torpedo foi disparado, eu vi a bola no ar e deixei escapar: “GOL!”.
E foi.
Segundos depois era a bola na rede, eram os pulos e os abraços, o grito que vem não sei da onde mas que ativa todos os músculos do seu corpo, a excitação que faz o coração acelerar.
Eu cantei o gol, pai, e deu certo.
Talvez seja por isso que na minha cabeça, quase doze horas depois, esse lance se repita centenas de vezes, num loop que não é imaginário, e sim parte de minha memória recente, e certamente da minha memória para todo sempre, talvez seja por isso que os minutos que levaram para o jogo terminar agora pareçam, sei lá, uma mistura de algo que vivi com um sonho de final feliz, talvez seja apenas uma coincidência… Enfim…
O fato é que não sei o que determina o êxito da cantada. No mesmo jogo de ontem, em outro momento anterior, eu vi uma cabeçada de um jogador nosso que me fez flexionar um pouco o joelho e me preparar para a posição do pulo da celebração, segurando a mão da amiga que estava ao meu lado. O curioso é que aí eu não cantei, apenas me mexi, e não foi gol. Mas na hora H, quando tinha que ser, a cantada foi certeira.
Essa vai ser minha eterna lembrança de Sport 3 x 1 Internacional, na noite de 14 de maio de 2008, em jogo pela Copa do Brasil no estádio Adelmar da Costa Carvalho.

Para meu pai, meus irmãos, meus primos e amigos da TORCE.

4 Respostas to “As crônicas de LuLe”

  1. Luiz Nara Says:

    Lule e amigos da TORCE,

    Estou aqui no meio da confusão da pré-produção das festividades de São João e de inverno do interior do estado e de frente pro meu computador me pego emocionado, com os olhos cheios d´agua, ao ler a cronica de Lule.
    As lembranças de tantas vitorias do nosso Sport e claro a maior lembrança que levo comigo em todos os jogos, meu pai, me fizeram chorar no meio da sala de produção.
    Ele em 1989 foi a Porto Alegre assistir a final da mesma competição e ontem com certeza ele estava ao meu lado vibrando com a gente.
    Pra mim essa competição tem gosto especial.

    É isso Lule e galera, sempre nos jogos podem contar com mais um integrante da TORCE, ele tá junto.

    Saudações Rubro-Negras

    Nara – doido pra comer um bacalhau

  2. Teu pai tá certo. Não pode cantar gol. Dá um azar da bixiga.

  3. João Cordeiro Says:

    Difícil é segurar! É quase involuntário, eu mesmo sempre canto e ultimamente tem dado certo!

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